
Pontuação; vírgula; travessão; ponto final; reticências; aspas
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Depois da polêmica do travessão, que indicaria uso de ChatGPT, agora a vírgula, um dos sinais de pontuação mais utilizados na comunicação escrita, está sob “investigação” de internautas por ser “coisa de IA”.
A polêmica viralizou após uma usuária do X narrar que passou a notar um aumento no uso da vírgula para isolar vocativos (quando chamamos ou falamos com uma pessoa).
Exemplos: Oi, Vanessa / Bom dia, professora / Obrigada, João.
“A vírgula depois do ‘oi’ me incomodava muito e não entendia por que, do nada, todo mundo começou a escrever assim. Até que caiu a ficha: o ChatGPT escreve assim”, dizia a publicação, que foi excluída posteriormente.
Agora no g1
A internauta explicou que o estranhamento surgiu porque notou o uso da pontuação em contextos nos quais, antes, a regra era ignorada.
O relato chamou atenção de outros internautas, que se dividiram:
alguns reforçaram a observação da usuária e disseram também ter observado mudanças em comunicações escritas, especialmente no ambiente corporativo, e têm o mesmo “suspeito”;
outros questionaram a conclusão de que o uso da norma padrão indicava o uso de inteligência artificial na construção da frase.
Internauta levanta debate após relacionar uso de vírgula para isolar vocativo a ChatGPT.
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Função da vírgula no vocativo
A vírgula tem diversas funções na gramática:
indicar tempo ou lugar no início da frase: Ontem, Pedro me mandou mensagem.
listar itens que têm a mesma função: Gosto das flores verdes, azuis, vermelhas e brancas.
introduzir como aposto (que explica um termo anterior): Carlos, meu amigo, foi à festa.
anteceder conjunções de oposição: Queria ir à praia, mas estava chovendo.
Mas, nesta reportagem, trataremos da função de isolar o vocativo, que pode ser observado na frase: Letícia, não corra dentro de casa.
Silvia Maria Brandão, especialista em Soluções Educacionais da Arco Educação e doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP, explica que o vocativo sinaliza uma interlocução direta. Ou seja, indica com quem estamos falando.
Fábio Aquino, professor de português do colégio PB, da Inspira Rede de Educadores, detalha: “A colocação do vocativo nada mais é do que o chamamento de uma pessoa, de um animal, de um clube (como em torcidas de futebol). É uma iniciativa de interpelação, de conversa.”
Na comunicação oral, essa função é marcada pela entonação. Na escrita, a vírgula cumpre a tarefa de indicar como a frase deve ser lida e compreendida.
O elemento é parte da regra padrão da língua e é amplamente utilizado em todas as formas de comunicação que indicam uma fala direta para outra pessoa. Ela aparece, inclusive, na literatura, como mostra o trecho de Dom Casmurro, de Machado de Assis:
Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me; não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo dia, depois da missa, ele foi despedir-se dela.
– Fique, José Dias.
– Obedeço, minha senhora.
O trecho indica uma interação entre a mãe do narrador e um agregado da família e destaca uma interlocução direta entre os dois personagens.
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‘Esquecida no churrasco’
A redução do uso da vírgula na comunicação escrita moderna foi uma das mudanças acarretadas pela era digital, caracterizada por uma preferência por abreviações e gírias — e que dispensa o uso de pontuação e acentuação sempre que possível.
“Diante de um cenário de ausência de leitura e de forte influência da oralidade junto à tecnologia, notamos como todo esse fenômeno impacta na língua e na maneira como falamos”, explica Fábio Aquino.
Silvia Brandão avalia que a variação informal já está tão disseminada que, em alguns contextos, a falta da vírgula sequer é observada. “Não é raro vermos ‘bom dia mãe/ oi chefe/ oi João’, todas estruturas com vocativo, sem vírgula.”
Para ela, a vírgula do vocativo não só foi “esquecida no churrasco”, mas sequer é percebida ou compreendida.
Por este motivo, não é incomum que o aparecimento da vírgula no vocativo cause estranhamento — mesmo que não indique, necessariamente, o uso de inteligência artificial.
Mas o uso da pontuação adequada em algumas situações pode, sim, ser sinal do uso de inteligência artificial, de acordo com Fábio Aquino.
“Percebo bastante essa mudança, principalmente quando pedimos para os alunos construírem uma redação em casa e trazê-la pronta. Notoriamente, identificamos quando essa redação foi escrita pelo aluno de maneira autoral e quando ela foi feita por um suporte de inteligência artificial.”
Ausência da vírgula pode causar ambiguidade
A especialista avalia que, em alguns contextos, é possível identificar o caráter vocativo de uma oração mesmo sem o uso da vírgula. “Quando se fala ‘Bom dia Maria’, está claro que alguém está se dirigindo à Maria.”
No entanto, não é sempre que isso acontece.
“Em alguns casos, não separar o vocativo com vírgula gera ambiguidades que só aquele sinalzinho poderia eliminar: ‘’É preciso de regime, militar / É preciso de regime militar.’ Nesse exemplo, sem a vírgula, a oração ganha outro sentido, bastante diferente”, detalha.
Silvia Brandão conclui que as gramáticas normativas servem justamente para evitar ocorrências como essa e reforça que o uso da pontuação correta na comunicação é fundamental, mesmo que mantida somente na comunicação formal.
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